***(1992-2012) 20 ANOS DE PESQUISA***

ATENÇÃO!!!

Este blog é específico para difusão e estudo do patrimônio natural e cultural do município de Nova Venécia, bem como, tudo que norteia a sua cultura, memória e meio ambiente. A utilização, do material aqui disponibilizado (seja texto ou imagem), por qualquer veículo de comunicação, deve ser previamente solicitada ao Projeto Pip-Nuk por meio do e-mail: projetopipnuk@yahoo.com.br e jamais poderá ser publicada sem menção ao seu autor (quando houver) e ao respectivo blog.



Criado originalmente com o nome de Projeto Aymorés, em 1992, foi rebatizado com o nome atual a partir de 2003 e tem por objetivo a identificação, preservação, pesquisa e difusão do Patrimônio Natural & Cultural (material e imaterial) do município de NOVA VENÉCIA no norte do Estado do ESPÍRITO SANTO.

terça-feira, 5 de abril de 2011

As origens do Bairro “Padre Gianni Bartesaghi” (1997-2000)

Aspecto do bairro Padre Gianni por volta do ano 2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 11.


Por Rogério Frigerio Piva*


Houve um tempo em que o terreno onde se localiza o bairro “Padre Gianni”, como é popularmente conhecido, já serviu de aterro sanitário (lixão municipal). Foi no ano de 1991 quando o ex-prefeito de Nova Venécia, Walter De Prá, cumprindo o disposto na Lei Orgânica de Nova Venécia, transferiu para o local, o antigo lixão que se localizava as margens do rio Cricaré, em terreno impróprio, nas imediações do Ginásio Poli Esportivo, em local oposto ao de captação de água da estação de tratamento da CESAN. Naquela época, o terreno escolhido, medindo 148.410 m2, situado na localidade de “Córrego Bonfim”, encontrava-se fora do perímetro urbano da cidade de Nova Venécia.

Somente em 1997, na administração do ex-prefeito Francisco Diomar Forza, o aterro sanitário-lixão deixou de funcionar naquele local, sendo transferido para onde se encontra atualmente, às margens da Rodovia Nova Venécia-Vila Pavão. Por meio da Lei 2.204 de 11 de Julho de 1997 se oficializou a mudança de função do terreno que, a partir daquele ato legal, destinou-se a construção de unidades habitacionais.

O loteamento projetado foi denominado provisoriamente de “Bairro Municipal IV”, no qual, as casas populares começaram a ser edificadas. Ainda em 1997, por meio da Lei 2.217 de 24 de setembro, o novo bairro recebeu o nome de “Padre Gianni Bartesaghi”, homenagem a um italiano, missionário comboniano, que foi pároco entre 1978-1983, em Nova Venécia, e que, como seu último desejo, escolheu ser sepultado na cidade em 1991. Chamamos a atenção para destacar o incentivo do padre Gianni ao desenvolvimento da comunidade Ascensão do Senhor, cuja igreja, fôra construída com auxílio da paróquia de São Marcos, entre 1979-1981, no que foi o primeiro bairro de casas populares de Nova Venécia, o bairro COHAB, hoje conhecido pelo povo como: bairro Ascensão. Ironicamente, o saudoso padre Gianni, faleceu no mesmo ano em que, o terreno, onde mais tarde ergueu-se o bairro com seu nome, foi transformado em lixão municipal.



O padre Gianni Bartesaghi nasceu na Itália em 05/02/1929 e faleceu em 19/01/1991, sendo sepultado no Cemitério Senhor do Bonfim e, anos depois, seus restos foram transladados para o Mausoléu dos Combonianos no Cemitério São Marcos. Reprografia de foto em porcelana feita por Rogério Frigerio Piva, 20/03/2010.


Conforme Kim Campos, em artigo publicado na revista “Memória Legislativa: Edição comemorativa do cinqüentenário de Nova Venécia-ES”, no ano de 2004, à página 07, ao falar das ações realizadas pelo padre comboniano Bruno Tonolli, à frente da paróquia de São Marcos, entre 1996 e 2002, destaca que “(...) em dezembro do mesmo ano [1997] inaugurou 40 casas populares no bairro padre Gianni Bartesaghi, sendo 10 feitas pela prefeitura e 30 pela Paróquia.” Segundo esta informação sabemos que, apesar do conjunto habitacional do bairro Padre Gianni ter sido um empreendimento da administração municipal, contou também com recursos da Igreja Católica no seu início. Desta forma, fica registrado que desde dezembro de 1997, as primeiras unidades habitacionais, num total de 40, já estavam prontas, a ponto de serem solenemente inauguradas pelo pároco de então, padre Bruno Tonolli.

Em 16 de dezembro de 1998, por meio da Lei 2.303, o conjunto habitacional teve oficializados os nomes de sua avenida e quatro ruas, que receberam, respectivamente, os nomes de: Avenida André Forza, Rua Alexandre Caliman, Rua Alderico Moreschi, Rua Antonia Maria Gonçalves e Rua Josefina Casa Grande Francischetto.


Aspecto de casas populares no bairro Padre Gianni por volta do ano 2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 10.

Na revista intitulada “NOVA VENÉCIA: 800 OBRAS”, órgão informativo da Prefeitura de Nova Venécia-ES, publicada pelo Setor de Comunicação Social da Prefeitura de Nova Venécia em 2000, à página 04, sob o título “Moradia é uma realidade” encontramos as seguintes informações sobre o bairro que nascia:


Em pouco mais de três anos a atual administração construiu 127 casas para famílias de baixa renda (...), dando assim moradia digna para muita gente que não tinha onde morar.

A Prefeitura criou um novo bairro de casas populares, chamado Padre Gianni. O bairro está muito bem estruturado, com água, energia e rede sanitária. Foi o primeiro bairro de Nova Venécia a receber esgoto tratado, começando a acabar assim com a poluição do Rio Cricaré.

As casas construídas pela Prefeitura têm dois quartos, sala, cozinha e banheiro.


Além da citação que transcrevemos na íntegra, a publicação de 20 páginas, trazia estampadas cerca de cinco fotos coloridas mostrado aspectos das novas casas edificadas. E como, na realidade, era um catálogo das “ditas” 800 obras realizadas ou iniciadas na gestão do ex-prefeito Francisco Diomar Forza (1997-2000), foi publicada também na revista, a relação das famílias beneficiadas que receberam as 123 casas populares, o que entra em conflito com a informação da já citada página 4, onde, citam 127 unidades. Supomos que talvez as quatro unidades citadas além das 123 entregues, tenham ficado prontas, mas não haviam sido entregues até o momento daquela publicação.


Aspecto de casas populares no bairro Padre Gianni por volta do ano 2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 04.


Para que não se perca sua memória, transcreveremos abaixo os nomes dos(as) pioneiros(as) do bairro Padre Gianni que encontramos registrados nas páginas 10 e 11 da revista:


01. Beatriz Marques de Barcellos

02. Cenira Francisca Silva

03. Conceição Ap. Neves Oliveira

04. Devanir Fonseca

05. Ediana Dias da Silva Ramos

06. Edinalva dos Santos Manoel

07. Edma Lopes de Carvalho

08. Enivalda Pereira dos Reis

09. Euzineia Atanazio de Oliveira

10. Geralda Genuária Rosa

11. Inez Ribeiro Siqueira

12. Ireni Giacomini dos Santos

13. José Anacleto Correia

14. José Carlos Martins

15. Lucia Fabem da Silva

16. Mª das Graças B. Carvalho

17. Maria A. Correa Braz

18. Maria Alves Matos

19. Maria Antonia

20. Maria Ap. Alves de Souza

21. Maria da Penha Marques

22. Maria da Penha Pereira

23. Maria da Penha Pereira

24. Maria Dajuda dos Santos

25. Maria Helena P. de Andrade

26. Maria Margarida de Jesus

27. Maria Rodrigues Pena

28. Marilza Neves Alves

29. Marina de Oliveira

30. Natalina Ferrari Ferreira

31. Natanael Furtado Venturin

32. Nilda da Silva

33. Odila Bento de Lima

34. Quitéria Ferreira da Silva

35. Raimundo Pinto da Silva

36. Roque Batista Matos

37. Rosa Gomes da Mota

38. Rosalina Chaefer Vinturino

39. Sandra Puttin Teodoro

40. Sônia Maria Nunes Ortelan

41. Sônia Mendes Farias

42. Valdir Felberg

43. Vanilda da Conceição

44. Vanuza Vilella

45. Vilma de Almeida dos Santos

46. Zilma Gonçalves de Almeida

47. Alzenira T. da Conceição

48. Ana Cristina Giacomini Alberto

49. Anderson Barollo Pires

50. Aparecida Rosa



Cadastramento de moradores para o bairro Padre Gianni entre 1997-2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 10.


51. Mirian Dias Cândido

52. Célia Maria dos Santos

53. Cenira Pereira

54. Dativo Martins Dias

55. Edson Timoteo

56. Elenildes Correia

57. Elizabeth Matias dos Santos

58. Feliziana da Silva Macedo

59. Ilma A. Cardoso dos Santos

60. João Ferreira de Oliveira

61. Joaquim Benedito Filadelfia

62. José Marcos da Silva Santos

63. Kátia Rocha Santana

64. Laurides Fonseca Silva (Bira)

65. Leide Batista da Silva

66. Luzia Cheroto

67. Maria de Fátima Souza Barbosa

68. Maria de Fátima Moreira

69. Maura Fanticelli Pereira

70. Neide Maria Alves

71. Paulo Reges Pandolfi

72. Pedro C. dos Santos

73. Pedro Salvador

74. Regiane dos Santos

75. Rosa Aurea R. de Souza

76. Rosalina de Oliveira

77. Rosemeri de Souza Machado

78. Santa Marinho da Silva

79. Sebastião Rodrigues Medina

80. Silvana Lima de Almeida

81. Vanuza Venâncio Procópio

82. Vicenti de Paula da Silva

83. Zenilda da Penha Santos

84. Zildete P. L. dos Santos

85. Zuleide Morais Machado

86. Alzira F. dos Santos

87. Ana Maria de Oliveira Palácio

88. Angela Maria Elias

89. Antonia Alves dos Santos

90. Aparecida Alves da Silva

91. Beatriz Machado Correia

92. Brás Alves de Oliveira

93. Celina dos Santos Cunha

94. Clemilda Batista da Silva

95. Eliane Oliveira Gomes

96. Ivanete Cesarina

97. João Ferreira dos Santos

98. Júlia Márcia Fernandes

99. Juscelino O. dos Santos

100. Luiza Gomes de Almeida

101. Luzinete Pereira da Silva

102. Manoel Batista Nascimento

103. Maria da Penha A. Oliveira

104. Maria da S. Lisboa Fernandes

105. Maria das Graças A. Pereira

106. Maria de Fátima J. Barreto

107. Maria Djanira R. Amaral

108. Maria Eloisa Fran. Fonseca

109. Maria Eunice dos Santos

110. Maria Rosa de Jesus

111. Marta Zanon Puttin

112. Moaci Soares Benedito

113. Nair B. Filadelfia Sena

114. Nair Teixeira dos Santos

115. Natalino Pimenta

116. Neuza Thomé Gomes

117. Odete Pereira dos Santos

118. Reinaldo Rodrigues Pinas

119. Rosalina V. Nascimento

120. Solange Gomes da Silva

121. Valci Pereira dos Santos

122. Walmir de Araújo Santana

123. Zenilda da Penha dos Santos


Na relação publicada na revista a numeração inicia em 522 e termina em 644, tendo em vista que cada unidade habitacional foi considerada uma das “800 obras” realizadas por aquela administração. Chamamos a atenção para observar que a grande maioria dos chefes das famílias listadas, na relação acima, é de mulheres.

Também encontramos à página 13 da mesma publicação uma "Relação de Obras por Bairros", onde, no Bairro Padre “Gianne” são destacadas: “1- Construção de 144 casas populares; 2 – Construção de rede de tratamento de esgoto; 3 – Construção de energia elétrica; Instalação de telefone/água”. Mais uma vez observamos o número de unidades oscilando de 123 para 144. E questionamos: será que no cálculo estão incluídas as 30 casas construídas com recursos da Igreja Católica? Somente os documentos da administração municipal poderão dar uma precisão a esta informação, o que demandará uma pesquisa mais detalhada.


Aspecto de casas populares no bairro Padre Gianni por volta do ano 2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 01.

Essas escassas notícias que colhemos aqui e acolá, de um bairro relativamente novo na paisagem urbana de Nova Venécia, como o “Padre Gianni”, servem de exemplo para mostrar que, mesmo o nosso passado mais recente, tem muita história prá contar, o que denuncia a falta que faz ao município um Arquivo Público Municipal que poderia e deveria evitar a perda dos registros de nosso passado.


Neste ano de 2011, o bairro “Padre Gianni Bartesaghi” está completando seu 14º aniversário. Surgiu como solução habitacional para atender às famílias carentes de Nova Venécia. Para aquelas famílias que tiveram, no bairro, a realização do sonho da casa própria, hoje, ainda resta lutar pela melhoria da infra-estrutura urbana e assim, poder usufruir de uma verdadeira qualidade de vida.



*Rogério Frigerio Piva é natural de Nova Venécia. Historiador graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa sobre a História de Nova Venécia desde 1992. Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Trabalhou por 10 anos no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo onde ocupou diversos cargos. Atualmente é Professor de História da Escola Municipal de Ensino Fundamental Tito dos Santos Neves. Desde 2008 mantém o blog: Projeto Pip-Nuk, com vasto material sobre a História e o Patrimônio Natural e Cultural Nova Venécia: http://www.projetopipnuk.blogspot.com/

sábado, 26 de março de 2011

Os tesouros da Matriz (I): As esculturas do italiano Carlo Crepaz

IGREJA MATRIZ DE SÃO MARCOS. Edificada entre 1961-1965 por meio de doações feitas pelos moradores do município. Situa-se na Praça São Marcos no Centro da cidade de Nova Venécia e foi a primeira do município a possuir estilo moderno. Diz-se que sua arquitetura foi inspirada em uma igreja de Vicenza, na região do Vêneto, norte da Itália. Possui magníficos vitrais e imagens do Cristo Crucificado e do padroeiro São Marcos, em tamanho natural, esculpidas em madeira pelo escultor italiano Carlos Crepaz. A Matriz de São Marcos guarda ainda, em sua fachada, que representa as tábuas da Lei, dadas por Deus à Moisés, uma escultura em auto-relevo de bronze do Leão Alado de São Marcos, presente do Governo Italiano Facista de Mussolini dado a Colônia de Nova Veneza em Santa Catarina e, erroneamente, recebido em Nova Venécia no ano de 1925. Foto: Rogério Frigerio Piva, 19/02/2009.

Com esta postagem estamos iniciando uma série que pretende identificar as obras de arte sacra que compõem a Igreja Matriz de São Marcos, construída entre 1961-1965, no centro da cidade de Nova Venécia.

Por Rogério Frigerio Piva




Segundo o Pe. Carlos em seu livro “História da Paróquia de Nova Venécia (FURBETTA : 1982 , pp. 47-54)”, foi no “governo” do terceiro vigário, Pe. Fiovo Camaioni (1960-1966), que se deu a construção da nova igreja matriz de São Marcos, levada a efeito pelos missionários combonianos e os fiéis católicos entre 1961-1965. Hoje para quem vive ou visita Nova Venécia é impossível não notar o majestoso templo erguido à moda antiga, como a lembrar o traçado clássico das antigas cidades greco-romanas. Erguendo-se a oeste de uma esplanada, existente no cume de um morro, localizado no coração da cidade, identificado popularmente como “Morro da Matriz”, como a lembrar uma típica acrópole grega, encontra-se a igreja de São Marcos e seus tesouros artísticos.


Destes, por hora, vamos nos ocupar das esculturas em madeira presentes no presbitério representando São Marcos - o padroeiro, e o Cristo Crucificado.


A imponente escultura sacra de São Marcos, obra de Carlo Crepaz, presente desde 1963 na Igreja Matriz onde é padroeiro. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.



Mais uma vez é o Pe. Carlos Furbetta quem nos informa: Enquanto a obra [da construção da Matriz] sobe, [o vigário, Pe. Camaioni] planeja o futuro. A 29 de julho [de 1962] organiza uma campanha extra na cidade para a nova grande imagem em madeira de São Marcos, encomendada ao escultor italiano, radicado em Vitória, Carlos Krepas; (1982, p. 53). E, mais adiante, na mesma página complementa: Para a festa de São Marcos 1963 chega a nova magnífica imagem e são colocados na grande nave os bancos novos... (FURBETTA: 1982, p. 53).


Detalhe da escultura de São Marcos. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.



Com estas poucas linhas, o nosso saudoso Pe. Carlos Furbetta nos revela a autoria e a data da imagem que ainda hoje adorna o presbitério e impressiona a fiéis e visitantes quando se observa a riqueza de detalhes de uma escultura que parece que vai tomar vida e descer do altar a qualquer momento.


A riqueza de detalhes da escultura de São Marcos que parece que vai tomar vida e descer do altar a qualquer momento. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.


Mas é somente quando aborda o “governo” do sétimo vigário, Pe. Pedro Baresi (1974-1977), que ele nos esclarece, detalhadamente, como estava organizado o altar-mor e nos faz nova revelação, sempre se baseando no livro de Tombo da Paróquia, que é sua fonte primária por excelência: Reforma do presbitério da matriz: De primeiro o presbitério se apresentava arquitetonicamente enfeitado por 5 arcos. A imagem de São Marcos estava colocada ao centro, num grande nicho situado no alto, acima do nível dos arcos. O sacrário estava numa arrumação meio provisória também no centro, abaixo do São Marcos e como que tapando, com a ajuda de cortinas, o arco central. (FURBETTA : 1982, p. 66).

Após esta descrição onde podemos identificar onde estava a escultura de São Marcos desde 1963, ele fala da primeira modificação que sofreu o presbitério da Matriz: Eliminamos os arcos e o nicho de São Marcos. No centro colocamos um grande crucifixo: o corpo de Cristo, dobro do natural, obra do escultor Carlos Krepas, é de madeira escura; a cruz que se apóia no chão e alcança em altura quase o forro, é de peroba clara. Tudo isso quer dizer que o Cristo é o centro da nossa fé e o centro da Igreja. (FURBETTA : 1982, P. 66).

Eis aí, a autoria da escultura do Cristo Crucificado existente, ainda hoje, no presbitério da matriz, o mesmo escultor que fez a imagem de São Marcos, Carlo Crepaz, também fez o Cristo Crucificado e, portanto, por estas notas, sabemos que a imagem do Cristo é, aproximadamente, mais de dez (10) anos mais nova que a de São Marcos.


O Cristo Crucificado passou a fazer parte do acervo sacro da Matriz de São Marcos entre 1974-1976. Mais uma vez a obra ficou a cargo do escultor Carlo Crepaz. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.



Mas para onde foi a imagem de São Marcos após aquela reestruturação? Prossigamos o relato: Ao lado esquerdo da cruz, sobre grande consolo alto 1,70 m. sistematizamos o sacrário e, ao lado direito, sobre idêntico consolo, entronizamos a Bíblia. Esta arrumação quis indicar que Cristo nos deu duplo alimento: o de seu corpo, contido no sacrário, e o de sua palavra, contida na Bíblia. Ao canto direito do presbitério com a nave, sobre pedestal de um metro de altura colocamos a imagem do Padroeiro e, ao canto esquerdo, a imagem de Nossa Senhora. Esta arrumação quis significar que tanto Nossa Senhora como São Marcos são dois cristãos como nós, que, por terem seguido a Cristo mais perto, merecem a glória que desfrutam no céu e são para nós válidos protetores. (FURBETTA : 1982, p. 67).

Há alguns anos, ainda sob a administração dos missionários combonianos, o presbitério sofreu mais uma alteração que lhe deu a feição atual que pode ser vista na foto abaixo. Mesmo assim, as imagens: a do Cristo “centro da nossa fé e o centro da Igreja” que continua a ocupar o seu mesmo lugar, ladeado por São Marcos e a imagem de Nossa Senhora, já mencionada na década de 1970, da qual nos ocuparemos em outro momento.


Composição atual do presbitério da Igreja Matriz de São Marcos com destaque para o Cristo e o São Marcos do escultor Carlo Crepaz. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.



São Marcos e o Cristo Crucificado, são duas imagens de madeira feitas pelo italiano Carlo Crepaz (ou “Krepas” como grafou o Pe. Carlos Furbetta) e foram feitas, respectivamente: a de São Marcos entre 1962-1963 e a do Cristo entre 1974-1976.

Mas e o escultor Carlo Crepaz, o que sabemos sobre ele?

Quem nos fala é a professora da Ufes, Almerinda S. Lopes, Coordenadora de Pesquisa/multimídia para o portal “Espaço Cultural – Burle Marx” ( http://www.sefaz.es.gov.br/painel/default.htm ) mantido pela SEFAZ – Secretaria de Estado da Fazenda do Espírito Santo:


Carlo Crepaz viveu em Vitória por 33 anos (1951-1984). Imagem disponivel em 26/03/2011 no site: http://www.es.gov.br/site/noticias/show.aspx?noticiaId=99661390

Carlo Crepaz - Nasceu em Ortisei [in Val Gardena] – Dolomiti [Südtirol], [extremo norte da] Itália, em 06 de abril de 1919 e faleceu na mesma cidade em 09 de setembro de 1992. Filho de Giacomo Crepaz e Adelinda Sotriffer. Escultor, pintor e professor. Em 1931, concluiu o curso de Arte na Escola de Belas Artes da cidade natal. Depois de se dedicar à escultura na Itália, onde expunha e recebia encomendas para obras públicas e privadas, decide transferir-se para o Brasil.

Em 1951 chega a Vitória, passando a professor de esculturas obras Pavonianas, no Santuário de Santo Antônio. Entre 1961 e 1981, leciona a disciplina de Modelagem e Escultura na antiga Escola de Belas Artes em Vitória, que ajudou a fundar e depois, no Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Naturaliza-se cidadão brasileiro.


O cenário urbano de Vitória conta com esculturas do artista, falecido em 1992. Imagem disponível em 26/03/2011 no site: http://www.es.gov.br/site/noticias/show.aspx?noticiaId=99661390

Em sua produção escultórica tem destaque a figura humana, especialmente os bustos de pessoas ilustres, além de figuras de temática sacra e vultos históricos. Seu estilo manteve-se sempre preso aos padrões clássicos, não revelando nenhum apreço pelas simplificações, geometrizações e estilizações modernistas. A pintura foi atividade paralela, mas secundária na carreira do artista, comparada à escultura. No entanto, deixou dois quadros de temática religiosa no Santuário de Santo Antônio: o santo pregando aos peixes e a mula ajoelhada diante do Santíssimo Sacramento (1952). Pelos serviços prestados, recebeu o título de cidadão vitoriense, em 1965. Em 1987, já aposentado, volta à Itália, falecendo na mesma cidade em que nasceu, em 1992.

Obras realizadas no Espírito Santo: "Índio Araribóia", 1959 (bronze); "Pietá"; anjos e batistério, Convento da Penha (Vila Velha); "Nossa Senhora da Vitória", (altar-mor da Catedral Metropolitana); Imagens de "D. Bosco", "Cristo Crucificado", "Nossa Senhora Auxiliadora" e busto do padre "Motti", na capela do Colégio Salesiano; busto de "Rui Barbosa", no Tribunal de Contas; busto do médico "Eurycledes de Jesus Zerbini", na Praça Ubaldo Ramalhete; "Monumento ao Imigrante", em Domingos Martins; "O Pescador", na Assembléia Legislativa; "Monumento ao Cel Antenor Guimarães", (1955); busto de Domingos Martins", no Palácio Anchieta; busto do Dr. Ubaldo Ramalhete Maia, na praça de mesmo nome; busto de Homero Massena, no Centro de Arte da UFES, entre outras. No Rio de Janeiro: "Anoitecer ", acervo do Museu Nacional de Belas Artes. São Paulo: "Grupo de Imigrantes", no Palácio do Café. Curitiba: "Cristo". Na Europa: "Cristo", 1936 (madeira), em Paris e Florença; "Papa Pio X", 1946 (no Vaticano), entre outras.


FONTES: ALVES JÚNIOR, José P. "As vozes dos bronzes", Revista do IHGES, n.º 20, 1959. FARIA, Willis de. Catálogo dos Monumentos Históricos e Culturais da Capital. Vitória, ARTGRAF, 1992. ASSIS, F. Eugênio de. "Efemérides Capixabas", recorte de jornal, s.p. e s.d., encontrado na caixa n.º 25 do acervo de Maria Stella de Novaes, no Arquivo Público Estadual."


(Texto disponível em 26/03/2011 no site: http://www.sefaz.es.gov.br/painel/escul10.htm).


Em 2006, uma exposição na Galeria Homero Massena e palestra, homenagearam Carlo Crepaz em Vitória, confira nos links abaixo:


05/09/2006 – Cultura – Vitória em Arte faz homenagem a Carlo Crepaz a partir desta terça (05):


http://www.es.gov.br/site/noticias/show.aspx?noticiaId=99661390


06/09/2006 – Cultura – Galeria Homero Massena mostra Crepaz até 30 de setembro:





Confira também portal italiano da terra natal de Crepaz:

quinta-feira, 17 de março de 2011

Casa de Pedra do Perletti também pode sediar Museu do Café

Símbolo histórico da colonização italiana em Nova Venécia, a Casa de Pedra do Perletti, cujas obras de restauração estão em andamento, poderá sediar um Museu do Café.

A conclusão da restauração da Casa de Pedra do Perletti deverá ser até maio próximo. Foto Samuel Sabino, 14/03/2011. Imagem disponível em 17/03/2011 no site: http://www.novavenecia.es.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=373%3Acasa-de-pedra-tambem-pode-sediar-museu-do-cafe&catid=38%3Adestaques&Itemid=83


Por Samuel Sabino (Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Nova Venécia), publicado em 15/03/2011, às 13:26 no site oficial da Prefeitura de Nova Venécia: http://www.novavenecia.es.gov.br/



A proposta partiu do vereador Otamir Carloni e do historiador Rogério Frigerio Piva, que fazem parte da comissão indicada pelo prefeito Wilson Japonês para acompanhar as obras de restauração com o objetivo de evitar a descaracterização do monumento, que é tombado pelo Conselho Estadual de Cultura desde 2003.

O museu contará histórias política e econômica de Nova Venecia a partir da cultura cafeeira que até hoje sustenta a economia do município. “Nossa idéia é mostrar a vinda do imigrante italiano e do nordestino para trabalhar na lavoura cafeeira de forma interativa, apresentando exposições e outros recursos visuais”, explica Rogério Piva, que desde os anos 90 pesquisa sobre a história da Casa de Pedra do Perletti e hoje mantém um blog sobre o assunto, cujo endereço virtual é o seguinte:
www.projetopipnuk.blogspot.com .

A princípio, entretanto, a Casa de Pedra do Perletti vai abrigar um museu de acervo cultural de Nova Venécia, reunindo objetos, documentos, jornais e fotografias que contam a história social, política e econômica do município.

As obras de restauração estão em ritmo avançado e devem ser concluídas até maio próximo. A comissão vem acompanhando de perto os trabalhos, sugerindo algumas mudanças no projeto original. No telhado, por exemplo, foi negociada a colocação de um tipo de telha francesa bem parecido com o utilizado em 1925, época da construção do monumento que funcionou como abrigo de máquinas a vapor para pilar café e como ponto de venda de secos e molhados até a década de 1930.

Ao lado da Casa de Pedra do Perletti está sendo construído um anexo que conta com palco, auditório para 150 pessoas e dois banheiros. O local será utilizado para apresentações artísticas e culturais e palestras.


O anexo conta com palco, auditório para 150 pessoas e dois banheiros. Foto Samuel Sabino, 14/03/2011. Imagem disponível em 17/03/2011 no site: http://www.novavenecia.es.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=373%3Acasa-de-pedra-tambem-pode-sediar-museu-do-cafe&catid=38%3Adestaques&Itemid=83



A restauração da Casa de Pedra do Perletti e a construção do anexo custarão R$ 526.730,42, recursos do Governo Federal, resultado de um convênio assinado entre a Prefeitura de Nova Venécia e o Ministério do Turismo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Prefeitura realiza 1ª Seminário de Políticas Públicas para a Cultura de Nova Venécia


PATRIMÔNIO CULTURAL - IMATERIAL: Grupo de Folia de Reis "Sois Reis" herdeiro de uma tradição nordestina que remonta ao início do século XX, em Nova Venécia, em apresentação realizada no saguão da Prefeitura Municipal. Foto: Rogério Frigerio Piva, 21/12/2009.



PATRIMÔNIO CULTURAL - MATERIAL/ARQUITETÔNICO: Herança dos colonizadores das terras que atualmente compreendem o município de Nova Venécia, as antigas residências rurais construídas com esqueleto de madeira e paredes vedantes de estuque ou tijolos de adobe, ainda resistem no interior do município. Até quando??? Na foto uma das várias edificações que ainda podem ser apreciadas nas margens da estrada que corta o vale do Córrego do Refrigério, interior de Nova Venécia. Foto: Rogério Frigerio Piva, 22/11/2009.
Creio que seja de interesse de todos aqueles que se preocupam e se dedicam ao fazer cultural, e em especial, ao nosso Patrimônio Cultural - material ou imaterial, participar do evento que se realizará na próxima segunda-feira (10/05) e que, na prática visa apresentar as leis que reestruraram o Conselho Municipal de Cultura e criaram o Fundo Municipal de Cultura. Tivemos oportunidade de conhecê-las na íntegra no site da Câmara Municipal (veja o link abaixo), mas questionamos o fato de não ter ocorrido nenhuma discussão com os "segmentos" interessados, antes do texto final ser aprovado. De qualquer forma, estaremos lá para ouvir e, somente depois, nos manifestar. Veja abaixo a nota que foi publicada no site da Prefeitura de Nova Venécia no dia 04/05/2010:
Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Nova Venécia - A Secretaria Municipal de Cultura [e Turismo] convida todos os artistas venecianos que representam os seguimentos de música, artesanato, artes plásticas, dança, cultura negra, cultura italiana, folclore, capoeira, cinema, vídeo, fotografia, entidades socioculturais, patrimônio histórico, teatro e ativistas culturais para o 1° Seminário de Políticas Públicas que acontecerá no dia 10 de maio, a partir das 18h30. Segue abaixo a programação completa do evento, que acontece na Câmara de Vereadores.

PROGRAMAÇÃO
18h30 – Recepção Performática (performance poética, música, literatura, artesanato, artes plásticas);
19h00 – Abertura dos Trabalhos, composição da mesa, Hino Nacional;
19h30 – Exposição Temática do Juiz de Direito Dr. Ronaldo Domingues de Almeida (Juridicidade dos programas públicos para a cultura);
20h30 – Apresentação das Leis e processo organizacional (data de eleição do CMC, proposta de crédito suplementar especial para o FMC.

Exposição temática do Juiz de Direito
Dr. RONALDO DOMINGUES DE ALMEIDA.


Fonte: http://www.novavenecia.es.gov.br/banco/noticias.php?id=608

Consulte as novas leis municipais Nº 3007/2010 de 02 de Março de 2010 que criou o CMC - Conselho Municipal de Cultura e Nº 3006/2010 de 02 de Março de 2010 que instituiu o FMC - Fundo Municipal de Cultura no site da Câmara Municipal de Nova Venécia:
PATRIMÔNIO CULTURAL - IMATERIAL: Coral Italiano Augusto Zaché, que mantém vivo em nosso município um traço marcante da cultura dos imigrantes italianos - o canto de coro. Este ano (2010) o grupo completa 30 anos de presença na cultura veneciana. Na foto acima, em recente apresentação no município vizinho de Jaguaré. Foto: Regina Bis Lima, 10/04/2010.



PATRIMÔNIO CULTURAL - MATERIAL/ARQUITETÔNICO: Poucos devem ter conhecimento, mas a edificação mostrada na foto acima é a mais antiga, ainda de pé, no centro da cidade de Nova Venécia. Construída entre o final do século XIX e o início do século XX ela pertenceu ao homem que, desde 1958, da nome ao logradouro onde ela se localiza: Salvador Cardoso, um dos pioneiros na colonização de Nova Venécia, descendente de tradicional família mateense. O mínimo que se espera do novo Conselho Municipal de Cultura, que será eleito em breve, é que ele possa desenvolver ações que assegurem a preservação e mesmo a restauração de edificações como esta, que são marcos da evolução urbana da cidade. Foto: Rogério Frigerio Piva, 19/02/2009.

segunda-feira, 8 de março de 2010

CONSTÂNCIA DE ANGOLA: Mulher, Mãe e Guerreira do vale do Cricaré

Mulher de Angola com filho nas costas. Angola é um país na África Atlântica de onde foram arrancadas milhares de pessoas que vieram à força, trabalhar como escravos no Brasil. Imagem disponível em:

São Constâncias que continuam perdendo seus filhos para os senhores, queimados pelo mesmo fogo da discriminação e do preconceito, e que mais tarde voltam, também, irremediavelmente, para seus braços, mortos, como de costume...
São meninos que choram, eternamente... São mães guerreiras que continuam lutando pelo direito à vida e, sobretudo, pela liberdade sonhada...”
(Maciel de Aguiar)



Por Izabel Maria da Penha Piva*
(colaboração Rogério Frigerio Piva)


Província do Espírito Santo, sertão de São Mateus, segunda metade do século XIX. Gritos se espalham pela paisagem composta por montanhas e um longo rio que corta a região, o Rio Cricaré. Seu nome quer dizer sonolento, dorminhoco, por suas águas tranqüilas que desembocam no mar. E sonolento, impassível, o rio escuta esse lamento. São gritos de dor. Uma mulher está acorrentada ao tronco e constantemente é chicoteada por afirmar que matará sua senhora. Nesse tronco há uma negra que não se dobra à dor das chibatadas. Que deseja a morte daquela que lhe imputou a pior dor que poderia uma mulher sentir. Não são chibatadas que lhe estraçalham a pele escura o motivo do lamento. Mas o filho que lhe foi arrancado dos braços maternais, e jogado em uma fornalha. Apenas por que, como criança que era, chorava. Apenas por que seu choro incomodava a sinhá. Esta em um momento de domínio total sobre a vida de seus escravos arrancou o bebê dos braços da mãe e lhe atirou na fornalha da fazenda. A mãe, açoitada e acorrentada ao tronco, grita e chora. É um grito de dor de mãe. É um grito de uma mulher. Seu nome: Constância de Angola.

Essa história, contada pelos descendentes de escravos da região do Vale do Cricaré, emoldura a saga da colonização da cidade de Nova Venécia, que, antes chamada de sertão de São Mateus, surgiu no vale do Rio Cricaré. São histórias de um povo que se misturava entre os sangues índio, negro, mineiro, nordestino e europeu. Da cidade de São Mateus, saíram os colonizadores, abrindo a mata, enviando seus escravos a abrir fazendas, a plantar cana-de-açúcar, café. Essa região recebeu montantes de italianos e outros povos europeus, além de migrantes nordestinos que também trabalhavam nas lavouras ou nas casas-grandes. Uma dessas casas foi o casarão sede da antiga Fazenda da Serra dos Aymorés, na atual localidade de Serra de Baixo, em Nova Venécia, conhecidos como Casarão dos Escravos, e que hoje desaparecido, permanece vivo nas memórias dos moradores mais antigos. São lembranças que, vindas da oralidade popular, deixam várias lacunas na História. Por exemplo, quem foi Constância de Angola?

Segundo o pesquisador Maciel de Aguiar, em seu livro “Os Últimos Zumbis”, há registros (guardados no cartório do 1º Ofício de São Mateus) de uma escrava de nome Constância, “criola de cor parda, solteira” que foi comprada pelo Coronel Matheus Gomes da Cunha, irmão do Major Antonio Rodrigues da Cunha, o Barão de Aymorés, por volta de 1880. Enquanto o barão, além de possuir a fazenda “Cachoeiro do Cravo”, também abriu a fazenda “Serra dos Aymorés”, seu irmão Matheus Cunha era proprietário das fazendas “Cachoeiro do Inferno”, nas proximidades da cachoeira homônima no distrito de Nestor Gomes, em São Mateus, e a “Boa Esperança”, localizada em Serra de Cima, distrito sede de Nova Venécia. É possível então que Constância tenha sido levada para essa fazenda, aberta com o objetivo de cultivar café na segunda metade da década de 1870 e nova frente de produção daquele fazendeiro.

Casarão da Fazenda Cachoeiro do Cravo, às margens do braço sul do rio São Mateus ou Cricaré, no distrito de Nestor Gomes, São Mateus. Pertenceu ao Major Antônio Rodrigues da Cunha, depois agraciado com o título de Barão de Aymorés. Este local é testemunha do suplício de Constância, onde, próximo dali, jazem seus restos mortais. Foto: Rogério Frigerio Piva, 17/02/2010.

Seguindo este pensamento os pesquisadores Maciel de Aguiar e Eliezer Nardoto situam o drama de Constância na Fazenda Boa Esperança e afirmam que esta se localizava na região do atual município de Boa Esperança, o que para eles explicaria a origem do nome. No entanto, há evidências documentais e orais, entre elas o processo da compra da terra denominada “Boa Esperança”, requerida pelo Sr. Coronel Matheus Gomes da Cunha, no ano de 1876, na região denominada Serra dos Aymorés, primeiro nome pelo qual Nova Venécia foi conhecida. A planta da propriedade foi medida pelo agrimensor Cassiano de Castro Nunes no ano de 1880. Considerando essa localização, a História de Constância, poderia ter se passado na região hoje conhecida como Serra de Cima, cortada pelo afluente do rio Cricaré, não por acaso chamado de “Córrego da Boa Esperança”, que nasce na Fazenda Santa Rita, localizada atrás da cadeia de pedras graníticas da qual faz parte a Pedra do Elefante.

Matheus Cunha e seu irmão Antonio Rodrigues da Cunha, o Barão de Aymorés, abriam essas propriedades no intuito de plantar café. Nessas regiões conhecidas como o sertão de São Mateus, apenas davam continuidade a um projeto estabelecido para todo o sudeste do Brasil, a expansão das lavouras cafeeiras em vista da exportação desse produto para a Europa e os Estados Unidos. A economia brasileira se assentava em torno dos cafezais e colocava entre lavouras e terreiros, histórias de vidas de origem completamente distintas que se encontravam como escravos africanos, pobres italianos e retirantes nordestinos.

Muitos outros relatos de cunho popular, tanto dos descendentes de escravos, como o de Lauro Santos, transformado em livro por Maciel de Aguiar, quanto dos descendentes de imigrantes italianos como das famílias Merlin, Pettene, Cadorin e de descendentes de retirantes nordestinos, como da família Galvão, afirmam ser nesse local (Serra de Cima) a antiga moradia da personagem de uma lenda corrente nas conversas dos mais antigos da região, a história da mulher que virou serpente. Essa mulher, identificada como Dona Lina, seria na verdade Francelina Cardoso Cunha, segunda esposa de Matheus Cunha e cunhada do Barão de Aymorés. O pesquisador Maciel de Aguiar a cita como a mulher que teria jogado o bebê de Constância no forno, retirando esse terrível acontecido da culpa de Dona Rita Cunha, mãe do Barão, como pensavam alguns moradores de São Mateus ou mesmo da Dona Theodózia Vieira da Cunha, esposa do Barão de Aymorés.

Um dos poucos vestígios arqueológicos do antigo "Cemitério Particular da Fazenda Boa Esperança" o túmulo visto na foto que tem ao fundo a Pedra do Elefante, seria da Senhora Francelina Cardoso Cunha, esposa do antigo proprietário da fazenda Coronel Matheus Gomes da Cunha. Segundo a lenda ela teria se tornado uma serpente após a sua morte. O lugar hoje é conhecido como Serra de Cima e ainda é cortado pelo córrego que evoca o antigo nome da fazenda: Boa Esperança. Infelizmente, o túmulo aqui visto hoje encontra-se destruido. Foto: Rogério Frigerio Piva, 1993.

Lina Cunha, por ter feita tamanha crueldade com a criança, precisou ser retirada da fazenda e levada para a cidade de São Mateus, pois seus familiares temiam alguma represália dos escravos da propriedade. Mas sua fama de mulher má a acompanhou a ponto de afirmarem que ela, após a morte, teria se tornado uma serpente que assombrava os moradores da Serra de Cima. Tal assombramento só teve fim quando um bispo, após benzer o local, pediu a todos de Nova Venécia (na época denominada Barracão) que fechassem suas janelas voltadas para o rio Cricaré, e não olhassem as águas barrentas descendo ao mar após uma grande enchente. Dizem que a mulher, virada serpente desceu rio abaixo e desapareceu no mar. São lendas que corroboram as muitas histórias de sofrimento passadas por essa gente que colonizou o sertão de São Mateus.

Quanto a Constância, fugiu da fazenda resguardada por um grupo de quilombolas liderados por Viriato Cancão-de-fogo, um dos líderes negros da região. Participou de várias lutas contra forças do governo e capitães-do-mato, em favor da libertação de seu povo. Sofreu emboscada, foi presa, surrada em praça pública, e novamente libertada por Viriato Cancão-de-fogo que “invadira a prisão de São Mateus durante os festejos do padroeiro, na hora da procissão”, ainda segundo Maciel de Aguiar.
Tempos após a fuga, Constância se deparou com um velho inimigo, José de Oliveira, que na época da morte de seu filho era feitor na fazenda de Matheus Cunha. Agora capitão-do-mato, adquirira o apelido de “Zé Diabo”. A luta entre os dois se deu na região conhecida como Piaúna, braço norte do Rio Cricaré ou São Mateus. Constância morreu nessa luta, porém seu algoz também teve seu fim. As matas da região foram testemunhas da sangrenta luta entre os dois, contada mais tarde pelos ex-escravos.


Constância, conhecida pela alcunha “d’Angola” ou “de Angola”, referência a região de onde vinha ou onde vivia tribo da qual descendia na África, foi enterrada no cemitério dos escravos da Fazenda Cachoeiro do Cravo, pois esse era seu desejo, já que as cinzas de seu bebê teriam sido ali depositadas, com o consentimento do Major Antônio Cunha. O local, de rara beleza, guarda ainda a lembranças desse tempo de escravidão, tristeza e dor. Mas precisa ser preservado. As histórias não podem ser esquecidas. É preciso gritar aos quatro ventos que há tempos atrás uma mulher tornou-se guerreira e líder de um povo em busca de libertação. E essa história aconteceu tão perto de nós.

Vista do muro do antigo "Cemitério Particular da Fazenda Cachoeiro do Cravo" com o braço sul do rio São Mateus ou Cricaré ao fundo. Segundo Maciel de Aguiar, que o chama de "Cemitério dos Escravos", neste local, hoje abandonado e em ruínas, jazem Constância de Angola e seu filho. Destruição e abandono para com a nossa memória, para com a memória de Constância. Foto: Rogério Frigerio Piva, 17/02/2010.


Ainda hoje mulheres lutam por seus filhos. Tornam-se guerreiras para sustentá-los. São mães como Constância. Quem hoje passa na estrada que corta a fazenda do Cachoeiro do Cravo, ou como conhecemos, a Cachoeira do Cravo, não faz idéia que naquelas terras estão os restos mortais de uma mãe com seu filho bebê. Agora enfim, na morte, eternamente juntos. O colo de mãe que sentiu a ausência do filho jogado ao forno, recebe suas cinzas num longo abraço, que dura eternamente, num prazer que só as mães podem sentir porque são mulheres, são mães. Constâncias.


Referências Bibliográficas:

AGUIAR, Maciel de. CONSTÂNCIA D’ANGOLA: A eterna luta das mães negras. Série História dos Vencidos. Caderno 03. Editora Brasil-Cultura: Centro Cultural Porto de São Mateus: São Mateus, 1995. 31 p.

AGUIAR, Maciel de. LAURO E ROSALVO: Cantadores e Tocadores. Série História dos Vencidos. Caderno 20. Editora Brasil-Cultura: Centro Cultural Porto de São Mateus: São Mateus, 1996. pp. 18, 29-30.

AGUIAR, Maciel de. OS ÚLTIMOS ZUMBIS: A saga dos negros do Vale do Cricaré durante a escravidão. Brasil-Cultura: Porto Seguro (BA), 2001. pp. 59-73, 310, 323-325.
NARDOTO, Eliezer. e LIMA, Herinéa. HISTÓRIA DE SÃO MATEUS. EDAL - Editora Atlântica Ltda: São Mateus, 1999. pp. 25-26.










*Izabel Maria da Penha Piva é historiadora graduada e mestra em História Social das Relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo onde produziu a dissertação "SOB O ESTIGMA DA POBREZA: A Ação da Irmandade da Misericórdia no Atendimento à Pobreza em Vitória - Espírito Santo (1850-1889)", defendida em 2005. Vem atuando no magistério, seja na educação infantil, ensino fundamental e médio, há mais de 15 anos. É professora na Escola Estadual de Ensino Médio “Dom Daniel Comboni”, em Nova Venécia. É integrante e colaboradora do Projeto Pip-Nuk.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

GAMELEIRA na APA da Pedra do Elefante é alvo de vândalos

Vista da gigantesca Gameleira (Ficus sp) na Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante. Localidade de Serra de Baixo - Nova Venécia (ES). Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/10/2009.


Por Rogério Frigerio Piva



Uma das jóias existentes na Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante – a árvore popularmente conhecida como Gameleira (Ficus sp) que, segundo informações do Instituto Estadual do Meio Ambiente - Iema -, teria mais de uma centena de anos e cerca de 5 metros de diâmetro, foi alvo da ação de vândalos que deixaram seus registros indesejáveis nas raízes da mesma.

No dia 04/10/2009, ao levarmos amigos para conhecer a exuberante e gigantesca gameleira, que é um importante patrimônio natural veneciano, pudemos constatar até onde vai a “imbecilidade” do ser humano, se é que alguém que comete um gesto tão ridículo como aquele pode ser chamado de “humano”.

Detalhe das raízes da Gameleira (Ficus sp) na APA da Pedra do Elefante onde se vêem as pichações com tinta verde com as iniciais "EO" e "FG 2009". Localidade de Serra de Baixo - Nova Venécia (ES). Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/10/2009.



Utilizando tinta verde, um ou mais vândalos picharam algumas das raízes com suas iniciais e ainda dataram o que eles devem acreditar ter sido um “grande” feito. Infelizmente, os atos de vandalismo contra a árvore são mais antigos. Observando atentamente as suas raízes que, segundo a prefeitura municipal de Nova Venécia, ultrapassam 1,80 metros de altura, em alguns pontos, pode-se perceber que indivíduos insistem em gravar com canivete seus nomes ou iniciais nelas.

Outro detalhe das raízes da Gameleira (Ficus sp) na APA da Pedra do Elefante onde se vêem as pichações com tinta verde com as iniciais "FG" e o nome "Maykon". Localidade de Serra de Baixo - Nova Venécia (ES). Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/10/2009.


Apesar de agredir a árvore estes atos não interferiam na sua beleza cênica. A novidade é que, agora, quem for fotografar terá que escolher ângulos que não mostrem as pichações.

A popular Gameleira da Pedra do Elefante como também é conhecida, tem um porte gigantesco e chama a atenção de quem vai contemplá-la. Segundo a já citada administração municipal, a árvore teria mais de 15 metros de altura.

As terras onde a árvore se localiza foram desbravadas no final do século XIX, por volta de 1870, pelo major da Guarda Nacional Antônio Rodrigues da Cunha, mais tarde agraciado por D. Pedro II com o título de Barão de Aymorés, onde o mesmo constituiu sua fazenda denominada “Serra dos Aymorés” no sertão do que então era o antigo município de São Mateus.
Se for de fato centenária, a Gameleira viu o derrubar da mata local pelos escravos africanos para o cultivo do café, bem como a chegada de migrantes nordestinos e imigrantes italianos nos primórdios da colonização das terras venecianas. Certamente antes de tudo isso, pode ter sido abrigo para tribos de índios botocudo, como a dos Giporok, que erravam por nossas matas antes da colonização.

Nos anos 1990, ela se tornou centro de uma manifestação religiosa. Muitos acreditam que no local ocorra a aparição de Maria de Nazaré, mãe de Jesus, que foi ali chamada de “Mãe dos Peregrinos” e recebeu até um pequeno santuário construído por devotos em uma escarpa rochosa logo acima da pequena faixa de mata a qual se tem acesso pela Gameleira.

Com a criação da APA da Pedra do Elefante, em 2001, a Gameleira passou a ser mais divulgada como ponto turístico.


Para saber mais sobre a APA da Pedra do Elefante acesse:

http://www.meioambiente.es.gov.br/default.asp?pagina=16715

Veja também:

domingo, 25 de outubro de 2009

DARCILITO: O último adeus

O saudoso Darcilito no sítio histórico-arqueológico das ruínas do casarão do Barão de Aymorés (Casarão dos Escravos) na localidade de Serra de Baixo, zona rural de Nova Venécia, tendo ao fundo a Pedra do Elefante. Flagrante dos bastidores de entrevista dada por Darcilito a repórter da Star TV, Gabriella Coppo, sobre sua participação no longa metragem do diretor Paulo Thiago, SAGARANA: O DUELO, que teve uma de suas seqüências gravadas neste local em 1973. Foto: Rogério Frigerio Piva, 16/04/2009.

Infelizmente, conhecemos muito pouco o Sr. DACÍLIO JÚNIOR PESTANA SANTOS (1945-2009), chamado por todos, carinhosamente, de DARCILITO. Nosso primeiro e único contato foi apenas em uma tarde, na qual travamos intensa conversa. Em meio as filmagens de uma entrevista para a Star TV, pude conhecer melhor aquele homem, sobre o qual, já ouvira muitas histórias, e perceber que estava diante de um grande veneciano como poucos que ainda temos hoje em dia.
Filho de tradicional família veneciana, Darcilito, orgulhava-se muito de seu saudoso pai, Sr. Darcílio Duarte Santos. Seu pai foi um dos homens que liderou a emancipação política do distrito de Nova Venécia no ano de 1953, quando era vereador, pelo distrito, na câmara municipal de São Mateus. Como Darcilito fazia questão de contar, naquele tempo, o seu pai saiu em lombo de cavalo pelos arrastões de madeira (caminhos) que levavam ao interior para colher, de casa em casa, as assinaturas do abaixo-assinado que endossava o processo de emancipação de Nova Venécia.
Creio que um dos fatos mais marcantes relacionado ao Darcilito seja o seu envolvimento com a produção do longa metragem SAGARANA: O DUELO do cineastra Paulo Thiago. Gravado em 1973, teve sua primeira seqüência rodada nas ruínas do casarão do Barão de Aymorés (Casarão dos Escravos), na localidade de Serra de Baixo, zona rural de Nova Venécia.
Segundo Darcilito, os tiros ouvidos na seqüência foram feitos por ele, visto que o protagonista, o ator Joel Barcelos, não possuía intimidade com as armas. Estas, aliás, eram do acervo de Darcilito e foram utilizadas na produção da película que se tornou um clássico do cinema nacional. Aliás, a coleção de armas de Darcilito era famosa e merecia ser preservada de maneira permanente em um museu na cidade em que ele nasceu e amava. Segundo se noticiou, estas, estão em segurança, sob guarda do exército em Vila Velha, a espera de alguma iniciativa que as traga de volta para nossa cidade.
Inclusive, ainda sobre o filme SAGARANA, contava Darcilito que o "calhambeque" utilizado no filme, era de Flayne Bastos e teria sido reformado exclusivamente para este propósito.
Mais detalhes sobre o filme:
E foi com imensa surpresa, ou melhor, espanto, que recebemos a notícia da morte de nosso amigo Darcilito e, a ele e a sua jovem filha, dedicamos estas linhas que, se não foram escritas antes, foi por ainda sentirmos o engasgo na garganta do que poderia ter sido uma longa e duradoura amizade.

O cinegrafista, a repórter da Star TV, Gabriella Coppo, e Darcilito. Flagrante dos bastidores de entrevista dada por Darcilito a repórter da Star TV sobre sua participação no longa metragem do diretor Paulo Thiago, SAGARANA: O DUELO, que teve uma de suas seqüências gravadas na Serra de Baixo, zona rural de Nova Venécia em 1973. Foto: Rogério Frigerio Piva, 16/04/2009.

Detalhes sobre o acidente que, na manhã do sábado, dia 26/09/2009, tirou a vida de Darcilito e sua jovem filha:
http://anoticianv.com.br//index.php?option=com_content&task=view&id=266&Itemid=41


Epitáfio para um amigo......


Sentinela
Milton Nascimento
Composição: Milton Nascimento / Fernando Brant


Morte vela sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se vai
Revejo nessa hora tudo que ocorreu, memória não morrerá
Vul.......to negro em meu rumo vem
Mostrar a sua dor plantada nesse chão
Seu rosto brilha em reza, brilha em faca e flor
Histórias vem me contar
Longe, longe, ouço essa voz
Que o tempo não vai levar
Precisa gritar sua força ê irmão, sobreviver
A morte inda não vai chegar, se a gente na hora de unir
Os caminhos num só, não fugir e nem se desviar
Precisa amar sua amiga, ê irmão e relembrar
Que o mundo só vai se curvar
Quando o amor que em seu corpo já nasceu
Liberdade buscar,
Na mulher que você encontrar
Morte vela sentinela sou
Do corpo desse meu irmão que já se foi
Revejo nessa hora tudo que aprendi, memória não morrerá
Longe, longe, ouço essa voz
Que o tempo não vai levar